Há muito tempo me considero cidadã do mundo, de todos os lugares que já viví levo um pouco e isso foi aos poucos construindo essa colcha de retalhos que me compõe.
No papel, tenho dupla cidadania, e portanto desfruto desse interessante privilegio de poder dizer que sou daqui ou que sou de lá. Privilegio que nada conforta na verdade, porque, podendo escolher, o questionamento dentro da gente é inevitável.
Tem muita coisa boa e ruim no Brasil.. reconheço e não sou dessas que endeusa o país depois que já não mora mais nele. No entanto, é engraçado perceber-me brasileira em pequenos gestos e manias, e consequentemente reconhecer esses traços nos outros quando você está longe de casa.
Explico. há alguns meses fui ao show do Yamandu Costa, aqui em Nova York, plateia lotada, ele entra, aplausos, e devagarzinho ele pega o violão, começa a tocar, de repente, totalmente inesperado, colocou uma perna sobre a outra, e as duas sobre a cadeira enquanto tocava, como se estivesse no sofá de casa (mas na verdade estava diante de umas mil pessoas, num teatro renomado da capital do mundo). A plateia reagiu com graça, àquela graça e despojamento do musico. Eu pensei.. que linda a brasilidade, é tão despojado e informal como quase todos nós somos, mesmo sem que percebamos.
A lógica é simples: o violão é o instrumento dele. ele toca por horas e horas todos os dias. Porque ele teria que ficar em freeze e todo certinho diante da plateia? Se estiver com vontade de colocar a perna na cadeira, ele vai colocar, ué! porque não? Porque somos assim.. somos informais, somos barulhentos, somos sensíveis, gostamos de pegar, encostar, pedir, amar, beijar, abraçar.
Porque não temos a rigidez de nos preocuparmos em manter uma barreira, nós nos espaçamos, nos espreguiçamos, com espaço, ou mesmo sem espaço. somos intensos e dramáticos.
Essa informalidade eh libertadora em muitos sentidos, permite que os movimentos sociais sigam se expressando, que o amor nasça de maneira inesperada num simples olhar, mas não podemos negar que gera também uns probleminhas ( não no caso do yamandu, mas num outro tipo de recorte social).
Esse jeito brasileiro dá espaço para uma gente genuinamente maravilhosa e sensível se destacar. Esses dias entrei no metro e ao ouvir algo que parecia uma bossa, fui logo procurar de onde vinha a musica. To esperando meu trem chegar, mas não me contive, e sem que percebesse eu tava timidamente dançando um pouquinho, obviamente o musico me reconheceu brasileira, assim como eu o reconheci brasileiro. Sorrimos, e o trem chegou. É simples assim, não precisa de muitas palavras. Num outro dia, to caminhando pelo bairro e vejo um grafiteiro na rua, pintando um muro enorme e todo colorido, olho de novo e a bandeirinha do Brasil bem embaixo da assinatura da obra.. sabia. Brasileiro! e assim um sem fim de exemplos..
Fui ao show do Caetano e Gil aqui em Nova York, e a cada letra que cantavam me doía no peito , fosse de orgulho do meu pais, fosse por que aquelas musicas falavam de uma dor q só a gente sabe como é sentir. Era fácil distinguir os brasileiros entre toda a plateia.. os Brasileiros cantavam junto, suspiravam, sofriam, choravam de emoção com cada musica, enquanto os outros todos apreciavam o show 'normalmente'. Uma amiga americana que estava comigo no show disse: nossa, como é
intenso e caloroso, né? .... e eu respondi " é, é bem Brasileiro na
verdade"
E é por sentir assim, tão a flor da pele, que "ate beijo de novela me faz chorar".. é por sentir assim tão a flor da pele, que a generosidade é parte, e o sorriso é solto.
Por essas e tantas outras coisas.. mesmo que eu tenha o privilegio da escolha, quando me perguntam de onde sou, eu não tenho nenhuma duvida ao dizer que sou Brasileira, sou latina, sou feminista, sou mulher, sou livre!
Sorrimos com os olhos..e com todos esses sorrisos sigo meu caminho.
domingo, 26 de junho de 2016
sábado, 11 de junho de 2016
The Rubin Museum
New York tem museus de todos os tipos e para todas as coisas. O rubin museum, no entanto, eh uma obra rara de delicadeza e arte e ao mesmo tempo vibrante!
As exposicoes sobre arte asiatica, sobretudo dos himalayas, arte hinduista e budista. A historia de seculos e seculos da minha religiao.. coisas que so na asia eu veria, estao la, para minha alegria!
Uma livraria cheia de opcoes de livros incriveis para qualquer budista morrer de amor.
O legal eh que esse museu tem tambem um lounge/restaurante no primeiro andar que fica aberto com entrada gratuitas as sextas feiras, boa musica e voce ainda pode ir nos tours guiados do museu sem pagar.
Bom, alem de museu, livraria, restaurante, e arte... tem palestras e exibicoes de filmes a precos super razoaveis.
Com tudo isso.. o rubin museum tem se tornado um dos meus refugios preferidos para o happy hour da sexta feria. Se vierem a NY , sugiro a visita!
as escadarias sao lindas,uma obra de arte por si so.
As exposicoes sobre arte asiatica, sobretudo dos himalayas, arte hinduista e budista. A historia de seculos e seculos da minha religiao.. coisas que so na asia eu veria, estao la, para minha alegria!
Uma livraria cheia de opcoes de livros incriveis para qualquer budista morrer de amor.
O legal eh que esse museu tem tambem um lounge/restaurante no primeiro andar que fica aberto com entrada gratuitas as sextas feiras, boa musica e voce ainda pode ir nos tours guiados do museu sem pagar.
Bom, alem de museu, livraria, restaurante, e arte... tem palestras e exibicoes de filmes a precos super razoaveis.
Com tudo isso.. o rubin museum tem se tornado um dos meus refugios preferidos para o happy hour da sexta feria. Se vierem a NY , sugiro a visita!
as escadarias sao lindas,uma obra de arte por si so.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
365 dias /12 meses/ 1 ano - as known as : a life time!
Comecando pela arte, realmente os espetáculos da Broadway são genialmente produzidos e despertam em você sentimentos que você jamais imaginaria sentir vale a pena ir sim, mas quando voce mora aqui, é o artista de rua que esta lá todo dia, que participa da sua vida, que te sorri, ou que canta aquela música que te traz uma memória antiga, que me faz arrepiar. É descer as escadas do metro e já ouvir de longe a batucada de uma banda ou um saxofone melancólico. é virar a esquina e se deparar com um mural inteiro de graffiti, é respirar e transpirar arte.
Os parques são lindos,sim! Central Park , Bryant Park, Brooklyn botanical Garden, e tantos outros, mas viver aqui me permitiu conhecer um parque, de frente para o rio, escondido em williamsburg, de onde tenho a melhor vista de Manhattan e um pôr do sol lindo que me acalma o coracao; ou então o parquinho do meu bairro, que sempre tem carrinho de algodão doce, espetinho de gato, criança correndo para todo lado, como num tipico subúrbio americano/latino de NY.
Falando em latinos, foi em Nova York que comecei a entender a complexa condição de ser latina, viver como latina, sofrer preconceito de latina, mas também me senti orgulhosa de ser uma mulher latina (ja que o passaporte me permita escolher). Me senti emocionada de me reconhecer em meio a carinhos, beijos, e afagos, prosas na calcada, compras fiado, conversas altas ( pq sim, a gente fala alto, canta alto, briga alto, tudo altooo em comparacao com o americano medio que é sempre tao contido e educado) e tanto mais que so nós latinos compreendemos e que me soa sempre tao familiar.
Foi na cidade que fala todas as línguas, que eu, mesmo ja falando tres idiomas fluentemente, ao tentar aprender o quarto, descobri uma timidez que nem eu sabia que tinha, que me travou a língua entre os dentes e o curto circuito no cérebro com tantas vogais que não se pronunciam, consoantes que desaparecem, e uma professora terrível que percebeu minha dificuldade e não teve nenhuma compaixão. Sim essa cidade é dura, a vida também. Seguir, persistir, resistir, isso aprendi em Nova York. French level 2 aqui vou eu!
Arranha-céus?! Como pensar em NY sem todos eles, e o skyline, e Empire state, sim sim! Morando aqui, me acostumei com eles, mas na verdade o mais legal é ver como o sol que se alinha entre os prédios ao nascer e ao se por, as vezes mais, outras vezes menos iluminado. Reflete azul, amarelo, laranja .. e nessa lousa de cinza do concreto o sol vai se desenhando, e passando pelos espacinhos entre um prédio e outro, num espetáculo lindo.
Nova York me permitiu! é isso mesmo, porque essa cidade tem o dom de permitir coisas! Me permitiu experimentar roupas diferentes e modernas, parei de me esconder atrás de calcas jeans e camisetas larguinhas, fui de pijama no supermercado mil vezes, sai de batom vermelho as 8am, voltei para casa de metro no meio da madrugada, caminhando sozinha pela rua sem medo e sem receio. NY me permitiu experimentar pela primeira vez a coragem de sentar no salão do cabeleireiro e dizer: muda tudo! Porque entendi finalmente que a minha imagem no espelho não me faz quem sou.. mas ela é so mais uma das minhas muitas partes. Porque aqui prevalece o respeito a liberdade do outro, que por sua vez respeitará a minha também. Aqui somos o que quisermos, e as consequências cabem a mim e a mais ninguém.
A cidade que nunca dorme me ensinou a dormir bem cedo, porque o trabalho é árduo no dia seguinte, e não tem tempo ou espaço para dar bobeira. A cidade que nunca para me ensinou a fazer escolhas e priorizar o momento de sair da roda viva, para me dedicar a meditação diária e a disciplina espiritual.
A cidade que tem o mundo inteiro dentro dela, me despertou uma paixão pela Ásia, ainda que a distância, e um imenso respeito e amor pelos meus queridos países "do lado de lá do mundo", cheio de comidas deliciosas, gente sensível, e arte maravilhosa; quem diria que NY me faria despertar uma paixão dessas..embora nunca tenha pisado naquelas terra.. ja esta nos planos.
Por muitos dias foi difícil pra caramba, como quando algum doido cisma de gritar com você dentro do metro, que o chefe te da aquele puxão de orelha, que da saudades do Brasil, que você sente que seus amigos não te entendem ou que eh você que não entende eles.. no final das contas, é tudo parte de um processo de amadurecimento e transformação. Por muitos dias tive que cantar baixinho para mim mesma a musica do Frank Sinatra " if you can make it there, you can make it everywhere, it’s up to you!!!" Cantei, me emocionei e segui em frente, porque para cada dia difícil, tive o dobro ou mais de dias de descoberta, de frio na barriga, de aprendizado, de resiliência, de humildade, de sorrisos sinceros, de alegria genuína por estar vivendo tudo isso aqui.
Cheguei na
primavera de 2015, com todas as flores se desabrochando, e depois de ver o verão, outono e inverno,
vejo as flores de novo chegando devagarzinho e me lembro das minhas primeiras caminhadas por aqui, quando eu ainda estava tentando entender os mapas do metro, sotaques, o trabalho, buscar apartamento e tanto mais. Faco assim meu singelo Brinde a meu segundo ano de Nova York.. que seja tao incrivel como foi o primeiro! Entenderam por que todo mundo deveria se permitir ao menos algum tempo por aqui? :-)
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